Você já teve a sensação de que está fazendo tudo certo e nada avança?
Não é falta de esforço. Não é falta de fé. Você ora, você tenta, você espera. E o silêncio responde.
Esse lugar tem nome. A teologia chama de Vale da Formação. Não é punição. Não é abandono. É o período mais denso da jornada de qualquer pessoa que Deus chama para algo maior do que ela mesma.
O problema é que ninguém avisa que o Vale faz parte do plano.
Então você interpreta o atraso como rejeição. O silêncio como ausência. A espera como prova de que você errou alguma coisa.
Não errou.
Olha o padrão.
Davi foi ungido rei com menos de vinte anos por Samuel, o profeta mais importante de Israel. Todos na sala sabiam que aquele jovem pastor havia sido escolhido. A coroa estava destinada a ele.
Ele só a recebeu quinze anos depois.
No intervalo: anonimato, perseguição, cavernas, traição, fuga constante. Saul, o rei que deveria ter entregado o trono, passou anos tentando matar Davi. Em duas ocasiões diferentes, Davi teve Saul completamente à sua mercê. Podia ter terminado com tudo ali. Seus próprios homens diziam que era hora.
Davi não tocou nele.
Não porque fosse covarde. Porque havia entendido algo que a maioria nunca entende: o atalho para a promessa destrói o caráter que a promessa exige.
José teve a mesma escola, com outro nome. Aos dezessete anos, sonhos de grandeza. Aos trinta, o palácio. No meio: uma cova aberta pelos próprios irmãos, um mercado de escravos, uma acusação falsa, uma prisão sem data de saída e dois anos de esquecimento total depois de ajudar alguém que prometeu se lembrar dele.
Treze anos entre o sonho e o cumprimento.
Cada etapa parecia o fim. Cada etapa era o corredor.
Quando José finalmente chegou ao poder e se revelou para os irmãos que o haviam traído, ele não disse o que qualquer um de nós diria. Não houve “eu avisei”. Não houve “olha onde você está e olha onde estou”. Ele disse uma coisa só.
“Deus me enviou antes de vocês.”
O Vale inteiro, cada injustiça, cada esquecimento, cada dia sem resposta, havia sido uma missão disfarçada de traição. Nenhum dia foi perdido. O José da cova não tinha caráter para governar o Egito. O José da prisão, sim.
O padrão não para aí.
Abraão recebeu a promessa de um filho aos setenta e cinco anos. Esperou vinte e cinco. No intervalo, tentou resolver por conta própria e gerou um filho com a escrava de Sara. Esse filho se chamou Ismael. E o conflito que Ismael representou não terminou na geração de Abraão.
A pressa sempre gera um Ismael. Um resultado que parece solução e carrega dentro de si o problema que a espera teria evitado.
Moisés passou quarenta anos no palácio do Egito e quarenta anos no deserto antes de ser chamado. Oitenta anos de preparo para quarenta de missão. O palácio deu as ferramentas. O deserto deu a humildade. Sem os dois, ele quebrava sob o peso do que Deus ia colocar nos seus ombros.
Pedro é o mais próximo de você e de mim.
Impulsivo, confiante demais, sempre o primeiro a falar. Disse que jamais abandonaria Jesus quando todos os outros abandonassem. Horas depois, negou três vezes que o conhecia. Na terceira vez, os olhos dos dois se cruzaram.
Pedro saiu e chorou amargamente.
Aquela noite destruiu algo nele. O orgulho. A autoconfiança que parecia fé mas era só adrenalina. E quando Jesus o restaurou à beira do Mar da Galileia, a pergunta não foi “por que você me abandonou?” A pergunta foi simples, repetida três vezes: “Você me ama?”
O Pedro que pregou em Atos e converteu três mil pessoas num único dia era um homem diferente. A autoconfiança havia sido substituída por algo mais sólido. Dependência real.
O Vale não escolhe os fracos para entrar. Escolhe os chamados.
Paulo coloca em palavras o que esses seis viveram na pele. Em Romanos 5, ele escreve que a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência, e a experiência produz esperança. O verbo que ele usa no original grego, katergazomai, significa trabalhar completamente até o fim. Deus não usa o sofrimento de forma descuidada. Ele trabalha o processo até o produto estar completo.
O Vale não termina antes da hora. Nunca termina depois.
A questão então não é quanto tempo vai durar. A questão é o que está sendo construído em você enquanto você atravessa.
Davi louvava nas cavernas. José servia com excelência na prisão. Paulo cantava na cadeia. O Vale era o mesmo. O coração era diferente.
Em qual escola você está hoje?
Perseguição como Davi. Injustiça como José. Impaciência como Abraão. Deserto como Moisés. Falha como Pedro.
Nomear onde você está é o primeiro passo para parar de resistir ao processo e começar a cooperar com ele.
Porque o Pai que colocou o sonho em você é o mesmo que está trabalhando no silêncio. Ele não abandonou a obra. Ele está formando o portador antes de entregar o que o portador não aguentaria carregar sem o Vale.
Promessa grande em mão imatura não é bênção.
É fardo.