Existe uma categoria de oração que nunca faço. Não porque não sei que deveria. Não porque tenha esquecido. Porque fazê-la me exigiria admitir, diante de Deus e de mim mesmo, que estou com medo, que não sei o que fazer, que o controle que apresento para o mundo é uma ficção. E isso é mais do que o meu orgulho consegue suportar.
Isso é, tecnicamente, o oposto do que a Bíblia chama de oração.
Paulo pede que “as vossas petições sejam conhecidas diante de Deus” (Fp 4.6). A palavra grega aítemata — petições — implica necessidade comunicada, dependência articulada. Não é monólogo devocional. É o ato de dizer a alguém que você precisa de algo que não tem.
Para alguém cujo trabalho consiste em ser a pessoa que tem as respostas, que gerencia crises, que calibra o time quando o ambiente desestabiliza — articular necessidade é profissionalmente destreinado. Você não apresenta para o conselho com uma lista do que não sabe. Você apresenta com clareza, confiança, frameworks.
O problema é que esse hábito profissional coloniza a relação com Deus.
O pedido que revela o que acredito
Há dois anos, meu filho mais novo passou por uma crise que eu não sabia como resolver. Não era uma crise gerenciável — era do tipo que não tem processo, não tem best practice, não tem benchmark de mercado. Era apenas uma criança sofrendo e um pai sem a resposta.
O que fiz? Gerenciei. Li sobre o tema. Consultei. Criei um plano. Executei o plano. E orei — mas orei como quem reporta progresso, não como quem pede socorro. A forma que escolhi para chegar a Deus naquele período excluía sistematicamente a admissão de que eu não sabia o que estava fazendo.
Por quê? Porque dizer “eu não sei” para Deus em relação ao meu filho me colocaria diante de uma dependência que eu não queria registrar. O orgulho não é só vaidade — é medo de precisar. E eu estava com medo.
A oração que não fiz naquele período era simples: Pai, não sei o que fazer. Estou com medo. Preciso que você seja o que eu não consigo ser para ele agora.
Parece óbvio. Parece básico. Parece até fácil de dizer. Mas custava mais do que eu estava disposto a pagar naquele momento, porque exigia que eu abandonasse a postura de gestão e entrasse na postura de filho.
Esse é o movimento que o orgulho bloqueia. Não o orgulho de achar que você é melhor que os outros — esse é relativamente fácil de identificar. O orgulho de não querer precisar. O orgulho de não querer depender. O orgulho de preferir a ficção do controle à realidade da criatura diante do Criador.
Cristo e a oração no Getsêmani
O texto mais contracultural sobre oração que conheço é Marcos 14.36. Jesus, na véspera da cruz, ora: “Abba, Pai, tudo é possível para ti; afasta de mim este cálice; todavia, não seja o que eu quero, mas o que tu queres.”
O Filho de Deus ora articulando o que não quer. Nomeia o sofrimento. Nomeia a preferência contrária. E então se dobra — não como rendição à derrota, mas como confiança ativa na soberania do Pai.
Isso não é a oração do executivo. É a oração da criatura. E é a única honesta.
Voltando ao meu filho: quando finalmente parei de gerenciar e orei com o que estava de fato sentindo — medo, inadequação, necessidade — algo mudou. Não na situação imediatamente. Mas em mim. A postura de filho que a oração exige é a postura que abre espaço para a graça que a postura de gestor fecha sistematicamente.
A oração que eu não fiz por orgulho não era um pedido mais avançado. Era o pedido mais básico: Deus, eu preciso de você. E esse pedido, para mim, tinha custo. Tem custo toda vez.
Não sei quantos pedidos ficaram no rascunho porque revelariam dependência demais. Mas sei que cada um deles era uma oportunidade de ser criatura em vez de executivo — e eu escolhi o executivo.
Isso é o orgulho. E Cristo não deixa nenhum espaço para ele funcionar em paz.