A maioria das pessoas chega diante de Deus com uma pergunta. Uma pergunta honesta, sincera, feita de joelhos.
A pergunta errada.
“Qual é o meu propósito?” Parece certa. Parece madura até. Mas ela coloca você no centro. Faz de Deus um coach de vida pessoal cuja função é maximizar a sua autorrealização. E o Deus da Bíblia não é isso.
A pergunta certa é mais difícil. E dói mais.
“Para quem Deus me preparou?”
Repara a diferença. A primeira termina em você. A segunda aponta para fora de você. A primeira faz de Deus um recurso. A segunda faz de você um vaso. Paulo sintetizou em três preposições o que levaria um livro inteiro para explicar: dele, por meio dele, para ele são todas as coisas. Em nenhum momento a vida termina em nós.
Moisés passou quarenta anos na corte do faraó. Não foi prêmio. Foi treinamento para negociar a libertação de um povo. José passou treze anos entre a cova e a prisão antes do palácio. Quando finalmente chegou ao trono, não disse “Deus me usou para eu ser poderoso no Egito.” Disse: “Para conservar a vida a um povo numeroso.” O poder foi o instrumento. O povo foi o propósito.
Paulo escreveu metade do Novo Testamento. Viveu açoitado, naufragado, preso. No fim, não disse “fui bem-sucedido.” Disse: “Combati o bom combate, guardei a fé.” Paulo não recebeu uma vida boa. Recebeu uma vida significativa. E sabia a diferença.
Efésios 2.10 usa uma palavra grega que ninguém posta no Instagram. Poíema. Obra de arte. Poema. Somos a feitura de Deus, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Ele preparou de antemão. Para que andássemos nelas.
Pare no tempo verbal. Deus preparou. Antes de você. O propósito precede o indivíduo. Você não inventa seu propósito. Você o descobre. E ele nunca está dentro do seu coração esperando ser despertado pela paixão. Está fora de você, esperando ser recebido pela obediência.
Bonhoeffer escreveu: quando Cristo chama um homem, ele o convida a vir e morrer. Não é linguagem motivacional. É a estrutura do chamado. O eu que precisa morrer é exatamente o eu que está fazendo a pergunta errada.
Na estrada de Damasco, Saulo cai no chão e encontra Cristo. Sua primeira pergunta é a única pergunta cristã possível depois desse encontro. Não “o que vai acontecer comigo?” Não “qual é o meu destino?” Mas: “Senhor, que queres que eu faça?”
A vontade está em Deus. A ação está em mim. Essa é a estrutura de uma vocação madura. E ela começa quando você para de perguntar o que vai ganhar e começa a perguntar quem vai ser servido.
Sua carreira. Seus talentos. Seu cargo. Sua família. Seus recursos. Tudo isso é kit de ferramentas, não troféu de vitória. Os dons que Deus colocou em você têm endereço. A graça é multiforme porque ela toma a forma de cada um de nós para alcançar pessoas específicas no mundo.
Os santos mais felizes da história não foram os que perseguiram a felicidade. Foram os que se esqueceram dela porque estavam ocupados demais amando.
Pare hoje. Antes da próxima decisão, antes do próximo plano, antes da próxima oração que começa com “eu”. Faça a pergunta certa.
“Senhor, para quem Tu me preparaste?”
Ela nunca termina em você.