Dá para saber em três frases se alguém esteve mesmo no lugar que está contando.
Quem não esteve fala do significado. Quem esteve fala do cheiro, do barulho, da temperatura da água.
Éfeso, por volta do ano 90. Um homem de quase noventa anos era carregado numa cadeira para dentro da sala onde os cristãos se reuniam, porque as pernas já não obedeciam. Era a última testemunha viva. Todos os amigos dele já tinham morrido, quase todos de morte violenta.
Ele pegou uma carta para escrever e não começou com saudação. Não escreveu paz e bem. Não escreveu o próprio nome.
Começou listando o que tinha feito com o corpo.
Ouvimos. Vimos com os olhos. Olhamos de perto. E as nossas mãos apalparam.
A palavra que ele usou não significa encostar de leve. Significa apertar, tatear, conferir com os dedos, do jeito que você examina uma coisa no escuro para ter certeza do que é.
Setenta anos depois de tudo, com a memória já falhando para o resto, o que ele fazia questão de registrar era o que as mãos tinham sentido.
Havia motivo. Circulavam em Éfeso professores educados, convincentes, com uma versão mais elegante da história. Diziam que aquele homem era espiritual demais para ter tido um corpo de verdade. Que ele só parecia ter.
Soa como detalhe técnico. Não é. Sem corpo não há sangue. Sem sangue não há conta paga. E a coisa toda vira uma história bonita para consolar gente triste no enterro.
Você acha que crer é fechar os olhos e apostar.
Aquele homem fez o contrário. Ele abriu a carta mostrando as mãos.
E é aqui que incomoda de verdade, porque a iniciativa não foi dele. Ninguém alcança Deus tateando no escuro. Não foi um homem que subiu e conseguiu tocar. Foi Deus que desceu e se deixou segurar pelo braço por um pescador da Galileia.
Deus não mandou uma ideia. Mandou alguém que dava para apertar.
E aquela carta inteira existe por um motivo que ele declara no fim: escreveu para que as pessoas soubessem. Não para que torcessem. Não para que ficassem na dúvida até o último dia. Para que soubessem.
Hoje as suas mãos seguram outras coisas. O celular às três da manhã. O resultado que não veio. A conta que não fecha. O ombro de alguém que você não sabe como ajudar.
Nenhuma delas te dá certeza de nada.
A pergunta não é se você tem fé suficiente. A pergunta é: o que você faz com um homem que passou setenta anos dizendo que encostou a mão nele, e morreu velho, sem ganhar nada com isso?