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Ensaio · 01 / 12 Certidão de Óbito — A Vida Que Você Esqueceu de Enterrar

a vida que você esqueceu de deixar pra trás

Tem um tipo de despedida que a gente faz pela metade. Faz as malas, olha pra porta, respira fundo — e na hora de sair, guarda uma coisa no bolso. Pequeno demais pra pesar na mala. Grande o suficiente pra te prender.

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Tem um tipo de despedida que a gente faz pela metade.

Você decide ir embora. Faz as malas, olha pra porta, respira fundo. Mas na hora de sair, guarda uma coisa no bolso. Uma chave. Uma foto. Um número que você jura que nunca mais vai discar.

Pequeno demais pra pesar na mala. Grande o suficiente pra te prender.

Você foi batizado. Alguém te colocou debaixo da água e te levantou. A Bíblia não trata aquilo como um banho simbólico. Trata como enterro. Alguém morreu ali. E não era o vizinho.

Só que na segunda-feira você acorda e a vida velha ainda está no bolso.

A mesma raiva que sobe do nada às sete da manhã. A mesma aba que você abre quando fica sozinho. A mesma mentira pequena que escorrega na reunião, tão bem ensaiada que já nem parece mentira. O documento diz que você morreu. A rotina diz que você só trocou de roupa pro velório.

Aqui está o detalhe que trava todo mundo.

Você acha que deixar pra trás é sentir. Esperar o dia em que a vontade some, o gosto passa, a saudade da vida antiga evapora sozinha. Esse dia não vem. Ninguém deixa nada pra trás sentindo. Deixa decidindo.

E decisão tem hora e endereço. Não é às onze da noite, no quarto, com a porta trancada, negociando com aquilo que você já devia ter enterrado. É às nove da manhã, em público, cortando o acesso antes da fome chegar.

O que você não deixa pra trás, você carrega. E o que você carrega, uma hora cobra.

Tem gente que passou a vida inteira convertida e nunca soltou a mala. Domingo após domingo, mão erguida, olho fechado, e a vida velha ali no bolso, quentinha, esperando o culto acabar.

Deus não te levantou daquela água pra você sair carregando o defunto no colo.

A pergunta não é se você foi batizado.

A pergunta é: o que ainda está no seu bolso, que você jurou que tinha deixado pra trás?

"Deus não te levantou daquela água pra você sair carregando o defunto no colo."