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Estudo Teológico O Discipulado

Certidão
de Óbito

A vida que você esqueceu de enterrar
— a morte do velho homem e a novidade em Cristo

"Já não vivo eu, mas Cristo vive em mim."

Gálatas 2.20
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A Fraude e o Funeral

Um homem foi dado como morto em 2002 e voltou andando cinco anos depois — o retrato exato do cristianismo contemporâneo

Em março de 2002, um homem saiu de casa, no norte da Inglaterra, remou um caiaque até o mar e não voltou.

A polícia procurou por dias. Encontraram pedaços do caiaque destruídos nas pedras. Não encontraram o corpo. A esposa chorou diante das câmeras. Os filhos enterraram um caixão vazio. O jornal local publicou o obituário. Meses depois, a seguradora pagou a indenização.

Juridicamente, aquele homem estava morto. Existia um documento, um carimbo, uma data. A papelada estava em ordem.

Cinco anos depois, ele entrou andando numa delegacia em Londres, dizendo que não sabia quem era.

A "amnésia" durou pouco. Porque, durante esses cinco anos, o homem morto continuou sendo exatamente quem sempre foi. Morou a poucos metros da própria casa. Manteve contato com a família. Viajou para o exterior, e numa dessas viagens posou para uma foto ao lado da mulher que, no papel, era sua viúva.

Essa foto é que o entregou.

Ele tinha a certidão. Tinha o caixão. Tinha o obituário. O que ele não tinha era a coragem de viver como um homem morto.

E é exatamente aqui

que vive a maior parte do cristianismo

contemporâneo

Você foi batizado. Alguém ergueu as mãos, declarou as palavras, e te colocou debaixo da água. Naquele momento, segundo a Escritura, algo morreu. Não simbolicamente. Realmente. Romanos 6 não chama isso de cerimônia. Chama de sepultamento.

"Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida."

Romanos 6.4

Só que, como o homem do caiaque, muita gente sai da água com a certidão na mão e volta direto para o mesmo endereço. Mesmas amizades, mesmo temperamento, mesmas dívidas morais, mesma boca, mesmo feed, mesmas duas horas de scroll antes de dormir. A papelada está em ordem. A vida, não.

A diferença que dói

A diferença entre você e o homem do caiaque é que o seu funeral não foi fraude. Foi real, lavrado pelo próprio Deus, com a assinatura do sangue de Cristo. Mas, se você continua voltando para o mesmo endereço, vestindo a mesma roupa, atendendo pelo mesmo nome, o efeito prático é indistinguível de uma fraude.

A pergunta deste estudo não é "você foi batizado?". É: você morreu, ou só trocou de roupa para o funeral?

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A Dupla Certidão — Indicativo e Imperativo

Romanos 6 responde uma pergunta perigosa — e revela a estrutura que sustenta toda a ética do Novo Testamento

Romanos 6 não é um capítulo solto. Paulo está respondendo a uma pergunta que ele mesmo provocou no fim do capítulo anterior: se a graça de Deus aumenta exatamente onde o pecado abunda, por que não continuar pecando, para que a graça abunde ainda mais? (Rm 6.1)

A resposta de Paulo não é uma regra de comportamento. É uma correção de identidade.

"Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos?"

Romanos 6.2

Note o tempo verbal. O texto não diz "nós que estamos morrendo para o pecado", como quem descreve um processo em andamento. Diz "nós que morremos": um fato consumado. No grego original, o verbo está no aoristo — o tempo que descreve uma ação concluída, pontual, definitiva. Aconteceu. Está feito.

Mas o mesmo capítulo termina com um imperativo: "considerai-vos mortos para o pecado, e vivos para Deus em Cristo Jesus" (Rm 6.11). E a carta seguinte de Paulo é ainda mais direta: "mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra" (Cl 3.5). Outro verbo no imperativo.

Aqui está a estrutura

o indicativo sustenta o imperativo

nunca na ordem contrária

O que a maioria dos discipulados inverte

Você não recebe a ordem "morra" para que, um dia, ela se torne verdade. Você recebe a ordem "viva como quem morreu" porque isso já é verdade sobre você. Inverter essa ordem é o erro mais comum, e mais cansativo, do cristianismo contemporâneo.

Moralismo x discipulado — a diferença que muda tudo

I

Moralismo com vocabulário bíblico: tentar "morrer para o pecado" para merecer a sua identificação com Cristo. Esforço humano disfarçado de espiritualidade. Cansa e não muda ninguém.

II

Discipulado bíblico: viver a partir da identificação com Cristo que já é sua por pura graça, e por isso mortificar o pecado. Não é esforço para conquistar — é resposta ao que Deus já fez.

III

A imagem correta: a graça não é o prêmio no fim da linha. É o chão debaixo dos seus pés desde a largada. Você mortifica porque já morreu — não morre para depois ser aceito.

Você não briga com o velho homem para conseguir a nova identidade. Você briga com o velho homem porque a nova identidade já é sua. A ordem cronológica desse "porque" é a diferença entre esgotamento espiritual e vida cristã.

03 / 07

O Que o Grego Revela e a Promessa de Ezequiel

Três verbos, três tempos, uma só lógica — e a promessa antiga que a cruz cumpriu

A teologia, aqui, está escondida na gramática. Três verbos, três tempos, uma só lógica — e cada um responde uma pergunta diferente sobre o cristão que você é hoje.

Aoristo passivo · Romanos 6.4

συνετάφημεν · synetáphēmen

"Fomos sepultados juntamente"

1ª pessoa do plural · ação pontual concluída no passado

Aoristo passivo. Ação pontual, concluída no passado, feita por Deus em você. Você não se sepultou. Você foi sepultado. A voz passiva é fundamental: o sujeito da ação não é você. É Deus, que executou o funeral por meio da cruz de Cristo.

Perfeito · Gálatas 2.20

συνεσταύρωμαι · synestaúrōmai

"Estou crucificado"

uma ação passada cujo efeito permanece intacto no presente

Perfeito grego. Uma ação passada cujo efeito continua ativo no presente. "Fui crucificado e continuo, até hoje, no estado de quem foi crucificado." A cruz não é um evento que acabou — é uma condição atual. Você não está tentando ser crucificado. Você já foi. E ainda está.

Aoristo imperativo · Colossenses 3.5

νεκρώσατε · nekrṓsate

"Mortificai"

uma ordem para executar, não um sentimento para esperar

Aoristo imperativo. Uma ordem para executar, não um sentimento para esperar. Algo que você decide, hoje, à tarde. Não é "reze até a vontade sumir". É "aja como executor do que Deus já sentenciou". A vontade não desaparece porque você espera. Desaparece porque você mortifica.

O que Deus fez permanece

e por isso exige resposta

aoristo passivo · perfeito · imperativo — sempre nessa ordem

A promessa que vem de antes

Essa lógica não nasce com Paulo. Ela é uma promessa antiga, feita séculos antes, a um povo no exílio, sem absolutamente nenhuma condição de se reformar por conta própria.

"Darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei de vós o coração de pedra, e vos darei um coração de carne."

Ezequiel 36.26

Duas palavras hebraicas · uma cirurgia

I

לֵב חָדָשׁ · lev chadash
"Coração novo". O órgão que decide, ama e obedece — substituído por um novo, de fábrica. Não uma reforma. Uma troca completa.

II

רוּחַ חֲדָשָׁה · rúach chadashá
"Espírito novo". Não uma reforma de atitude. Um novo princípio vital, posto dentro da pessoa. Motor novo, não motor reformado.

III

Quem age em cada verbo?
"Darei", "porei", "tirarei". Deus age. Israel recebe. A transformação não é reforma; é transplante que Deus realiza do começo ao fim.

A mesma cirurgia · dois testamentos

Romanos 6 e Ezequiel 36 descrevem a mesma cirurgia. Paulo só mostra o bisturi: a cruz de Cristo é o instrumento pelo qual o "coração de pedra", o velho homem, é removido, e o "coração de carne" é implantado. Isso muda a pergunta que abre o estudo. Não é "o que eu preciso fazer para morrer?". É: o que Deus já fez, e por que eu insisto em viver como quem ainda carrega o coração antigo no peito?

04 / 07

Quatro Homens Que Não Voltaram Para Casa

A Escritura não registra conversões emocionais sem consequência — registra endereços trocados

A Escritura não registra conversões emocionais sem consequência. Registra endereços trocados. Quatro homens bastam para mostrar o padrão.

Marcos 5 · Legião

O homem que morava entre os túmulos

Em Marcos 5, Jesus desembarca numa região pagã e é recebido por um homem possesso, que vive literalmente entre sepulturas. Ele se fere com pedras, ninguém consegue prendê-lo, e quando Jesus pergunta o nome dele, a resposta é uma multidão: "Legião". Não há identidade ali. Há uma comissão de vozes disputando o controle de um corpo.

"...e vieram a Jesus, e viram o endemoninhado assentado, vestido, e em perfeito juízo..."

Marcos 5.15

Assentado: depois de uma vida de agitação compulsiva, ele agora descansa. Vestido: depois de uma vida exposta, ele agora tem cobertura e dignidade — exatamente a imagem que Paulo usa em Colossenses 3 para a vida nova. Em perfeito juízo: depois de uma identidade fragmentada em múltiplas vozes, ele agora tem uma mente, integrada, sua.

A obra do Espírito

O homem pede para ir com Jesus, para deixar aquele lugar. Jesus nega o pedido e o manda de volta para casa. A morte do velho homem nem sempre vem com mudança de endereço geográfico. Às vezes, Deus não tira você do lugar; Ele coloca um homem novo morando no mesmo lugar.

Filipenses 3 · Paulo

O currículo que se tornou lixo

Em Filipenses 3, Paulo lista o próprio currículo religioso: circuncidado no oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu, zeloso, irrepreensível quanto à justiça da lei. Pelos critérios da sua época, era um currículo perfeito. Hoje seria o equivalente a três certificações internacionais, um MBA e uma posição executiva antes dos trinta.

E então ele escreve a palavra mais chocante de toda a carta. O grego é σκύβαλα (skýbala): algo descartado, jogado aos cães, mais forte e mais cru do que a maioria das traduções deixa transparecer. Paulo não está dizendo que o currículo era ruim. Está dizendo que, comparado a conhecer Cristo, ele é lixo.

"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim..."

Gálatas 2.20

A obra do Espírito

O problema do currículo de Paulo nunca foi o currículo em si. O problema era que aquele currículo tinha se tornado identidade. Uma identidade construída sobre performance precisa morrer para que a identidade construída sobre Cristo possa viver.

João 18 e Atos 5 · Pedro

A boca que negou e a boca que desafiou

Na noite da prisão de Jesus, Pedro nega conhecê-lo três vezes. E não para um soldado romano armado, sob tortura. Para uma serva, numa fogueira, numa conversa informal. É o instinto de autopreservação no seu modo mais automático, mais reflexo, mais humano.

Depois de Pentecostes, esse mesmo Pedro é levado ao Sinédrio — o mesmo tribunal que condenou Jesus à morte — e diz na cara deles:

"Importa antes obedecer a Deus que aos homens."

Atos 5.29

A obra do Espírito

É importante não romantizar essa mudança. Pedro continua sendo Pedro: impulsivo, direto, ainda capaz de errar feio. Paulo precisa repreendê-lo publicamente por hipocrisia anos depois (Gl 2.11–14). Morrer para o velho homem não apaga sua personalidade, seu temperamento ou os seus pontos fracos. O que muda é o senhor. O Pedro antigo servia à autopreservação. O Pedro novo serve a Cristo, mesmo quando isso custa a vida.

Lucas 19 · Zaqueu

A conta bancária que confessou primeiro

Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos em Jericó, uma posição construída sobre extorsão sancionada por Roma e desprezada pelo próprio povo. Jesus não entra na casa dele para dar uma palestra sobre ética financeira. Ele simplesmente anuncia: "hoje convém que eu fique em tua casa". Salvação, aqui, é presença antes de ser instrução.

"Eis que dou a metade dos meus bens aos pobres; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, lho restituirei quadruplicado."

Lucas 19.8

Não é "vou tentar ser mais honesto a partir de agora". É restituição imediata, pública e cara. Quando o velho homem morre de fato, o primeiro órgão a sentir é geralmente a carteira.

A obra do Espírito

O dinheiro é o biógrafo mais honesto da alma (Mateus 6.21). Se a sua conversão nunca chegou ao seu extrato, é possível que ela ainda não tenha chegado ao seu coração.

Legião ganhou juízo · Paulo perdeu currículo

Pedro trocou de senhor · Zaqueu abriu a carteira

quando o velho homem morre · alguma coisa muda de endereço

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A Parábola dos Dois Endereços

A pergunta não é se a adoção é válida — é para qual endereço você volta à noite, quando ninguém está olhando

Um homem nasce numa favela, filho de um pai falido, violento, endividado até o pescoço. Cresce sob o nome que esse pai lhe deu, e cresce devendo as dívidas que esse pai contraiu, porque ali, dívida de pai vira dívida de filho.

Um dia, um homem rico, sem herdeiros, encontra esse jovem, vê nele algo que mais ninguém viu, e faz o impensável: adota-o. Não como um gesto simbólico. Juridicamente. Há papelada. Há um juiz. Existe uma certidão de óbito para o "filho da favela" e uma certidão de nascimento para o "filho do homem rico": a mesma pessoa, novo nome, nova genealogia, dívidas antigas canceladas por decreto.

O jovem se muda para a mansão. Recebe roupas novas, um quarto novo, um nome novo gravado na porta.

Só que, na primeira semana, ele volta. À noite, depois que todos dormem, sai pela janela, anda quarenta minutos, e entra na casa velha, que continua de pé, vazia, com a chave que ele nunca devolveu. Veste, por cima do pijama novo, uma camisa velha que guardou. Senta no chão, porque era assim que sentava antes. Não acende a luz, porque tem medo de ser visto — por quem, ele não sabe dizer.

Na segunda semana, dois homens aparecem na casa velha. São cobradores. A dívida é do pai antigo, a dívida que, na mansão, já não existe — foi cancelada no dia da adoção. Mas ali, na casa velha, vestindo a roupa velha, sentado no chão velho, ele é exatamente quem sempre foi. E os cobradores o tratam exatamente assim.

Ele corre. Pula a janela da casa velha. Atravessa o quintal. E só recupera o fôlego quando fecha, por dentro, a porta do quarto novo, na mansão, com o nome novo gravado por fora.

Ele tem a certidão

a adoção é real, legal, definitiva, irrevogável

mas na casa velha, ele dá aos cobradores o direito de cobrar

Mas, naquela casa velha, vestido daquela forma, ele dá aos cobradores o motivo, e o direito, de cobrar de um homem que, no papel, não existe mais.

A pergunta que a parábola coloca

A pergunta não é se a adoção é válida. É: para qual endereço você volta, à noite, quando ninguém está olhando, e o que você está vestindo quando chega lá?

O vocabulário teológico que a parábola traduz

Romanos chama a dívida antiga de "pecado" e o cobrador de "a lei". Paulo usa a imagem de um casamento: uma mulher está ligada à lei do marido enquanto ele viver; morto o marido, ela está livre para pertencer a outro, sem culpa (Rm 7.1–4). A morte muda a jurisdição.

"Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou."

Colossenses 3.9–10

Três palavras da parábola · três realidades da Escritura

I

A casa velha é qualquer lugar — físico, digital, mental, relacional — onde você ainda responde pelo nome antigo. Endereço de IP, grupo de WhatsApp, roda de conversa, gaveta emocional. Qualquer lugar onde os cobradores ainda encontram você.

II

A roupa velha Paulo chama pelo nome exato: "o velho homem com os seus feitos" (Cl 3.9). Padrões, reflexos, vocabulário, hábitos automáticos que você guardou "só para os dias difíceis" e vestiu de novo na primeira crise.

III

Os cobradores são a lei, a culpa, o passado, o inimigo. Eles só têm direito legal enquanto você responder pelo nome antigo. Fora daquele endereço, eles não podem alcançar você. Dentro dele, podem.

A resposta que Romanos 6 dá

Você não briga com os cobradores. Você para de voltar para a casa velha. Não porque a certidão precisa de reforço, mas porque ela já é definitiva — e viver dentro dela é honrar o funeral que Deus lavrou.

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O Que os Gigantes Já Sabiam e a Prova dos Cavalos

Calvino, Bonhoeffer, Owen, Tozer — e o dia em que os cavalos das minas de carvão do País de Gales não obedeceram mais

Os teólogos que mais marcaram a história da igreja não tratavam essa morte como metáfora confortável. Eles a tomavam ao pé da letra.

Enquanto Cristo permanecer fora de nós, separado de nós, tudo o que Ele realizou na cruz não nos beneficia em absolutamente nada. A unidade entre Cristo e o crente precisa ser real, vivida, não apenas declarada num domingo.

João Calvino Institutas da Religião Cristã · Livro III

Quando Cristo chama um homem, chama-o para vir e morrer. A graça que não exige nada de quem a recebe é graça barata — a inimiga mortal da nossa igreja.

Dietrich Bonhoeffer O Custo do Discipulado · 1937

A vida cristã é uma escolha binária, sem zona intermediária: ou você mata o pecado todos os dias, ou o pecado vai, lentamente, matando você. Não há convivência pacífica com o velho homem.

John Owen A Mortificação do Pecado · Séc. XVII

Há duas cruzes sendo pregadas na nossa geração: uma que apenas redireciona o ego, tornando alguém uma versão mais educada de si mesmo, e outra que executa o ego por completo, trazendo-o de volta à vida apenas pela ressurreição em Cristo. Só a segunda é a cruz do Novo Testamento.

A.W. Tozer A Cruz Radical · Séc. XX

Quatro vozes · uma só sentença

o velho homem não se reforma

se enterra

A prova dos cavalos

Teologia que não muda comportamento é apenas opinião bem referenciada. A história da igreja guarda registros do contrário — alguns documentados, outros preservados como tradição, mas todos apontando para o mesmo princípio.

Séc. IV · Hipona, Norte da África

"Não sou mais eu" — Agostinho

Conta-se que Agostinho de Hipona, antes da conversão registrada em suas Confissões, viveu anos mergulhado numa busca incansável por prazer e relacionamentos. Depois do encontro decisivo com Cristo, a tradição conta que, andando pelas ruas, ele viu à distância uma mulher de seu passado. Ela gritou seu nome. Ele, sem se virar, respondeu apenas: "Não sou mais eu."

O que a frase diz

Não dá para afirmar com certeza histórica se o episódio aconteceu exatamente assim, ou se é uma dramatização construída sobre a base real das Confissões. Mas a frase atravessou dezesseis séculos porque descreve com precisão cirúrgica o que Paulo chama de morrer para o pecado: não é negar que aquele homem existiu. É recusar continuar atendendo pelo nome dele.

1904 · Minas de carvão · País de Gales

Os cavalos que não obedeceram mais

Há também o relato do Avivamento do País de Gales, em 1904, um movimento que, segundo os registros da época, esvaziou bares e lotou igrejas em poucas semanas. Reza a história que, nas minas de carvão da região, os cavalos usados para arrastar os vagões começaram a desobedecer aos mineiros.

Não porque os animais tinham mudado. Porque os homens tinham. Os cavalos foram treinados sob xingamentos e pancadas; quando a boca daqueles mineiros mudou de dono, literalmente, os animais não reconheciam mais os comandos.

O princípio que não escapa

Você pode duvidar dos cavalos. Mas não pode escapar do princípio: se a conversão não muda o vocabulário que sai da sua boca às 7h da manhã, sozinho, no trânsito, quando ninguém está observando o seu testemunho — alguma coisa no funeral não aconteceu de fato.

O que qualquer grupo de recuperação sabe

Hoje, em qualquer grupo de recuperação de dependência — cristão ou não — você ainda vai ouvir a mesma frase, com outras palavras: "Eu não conseguia parar de beber, de usar, de mentir. Eu tive que morrer para aquilo. Não tinha outra saída." Sem saber o nome teológico, essas pessoas descobriram, na prática, o que Paulo descreve em Romanos 6. Você não negocia com o velho homem. Você o sepulta.

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Cinco Decisões Para Quem Já Morreu

A certidão já está assinada — a pergunta é o que fazer, hoje à tarde, com o velho homem que ainda tenta abrir a porta da casa nova

A certidão já está assinada. A pergunta deste último trecho é prática: o que fazer, hoje, à tarde, com o velho homem que ainda tenta abrir a porta da casa nova?

Cinco decisões diárias

1

Nomeie o cadáver. Mortificar é um verbo de ação específica, não um sentimento genérico de culpa. Hebreus fala do "pecado que tão de perto nos rodeia" (Hb 12.1) — no singular, específico, seu. Dizer "eu sou pecador" sem nada além disso é uma forma sofisticada de não fazer nada. Nomeie: é a língua, é a pornografia, é a bebida, é o controle, é a mentira que você conta no trabalho. Sem nome, não há funeral — só luto genérico.

2

Corte o suprimento. Romanos 13.14 ordena: "não façais provisão para a carne" — literalmente, não dê ocasião a ela. Você não mata um hábito debatendo com ele às 23h, no quarto, sozinho, com o aplicativo aberto. Você o mata removendo o acesso às 9h, em público, antes que a fome chegue. A casa velha deste estudo quase sempre tem um endereço de IP.

3

Vista-se, não fique nu. Colossenses 3 não termina no versículo 5 ("mortificai"). Continua no versículo 12: "revesti-vos" — de compaixão, bondade, mansidão, paciência. Os puritanos chamavam isso de vivificação. Você não pode apenas remover o velho homem e deixar o espaço vazio: o vazio é exatamente onde ele volta a morar, como o espírito imundo que retorna à "casa vazia, varrida e ornamentada" (Mt 12.43–45). Mortificação sem vivificação é uma casa limpa esperando o antigo morador.

4

Avise alguém que você se mudou. Tiago manda confessar uns aos outros (Tg 5.16). O homem do caiaque foi descoberto porque vivia em segredo. O cristão que vive em segredo — sem ninguém que saiba os detalhes, que pergunte, que tenha permissão para confrontar — está, na prática, fazendo a mesma coisa: vivendo numa identidade que não resiste à luz. Morte pública pede vida pública, dentro de uma igreja local.

5

Ande no Espírito, não na força de vontade. Romanos 8.13 é o fio que costura tudo: "se, pelo Espírito, mortificardes os feitos da carne, vivereis". Não diz "se você se esforçar o suficiente". Diz "se, pelo Espírito". Força de vontade tem prazo de validade — geralmente até o dia 17 de janeiro. A dependência do Espírito Santo é o único motor que não precisa de recarga, porque não é seu.

Você não precisa de um novo avivamento

Precisa parar de voltar para a casa velha

à noite · quando ninguém está olhando

Oração de quem já foi sepultado

"Senhor, eu tenho a certidão.
Fui sepultado com Cristo na morte.
Não preciso fingir, não preciso fraudar,
não preciso negociar com o velho homem
como se ele ainda tivesse poder sobre mim,
porque ele não tem.

Mas confesso que, esta semana, voltei para a casa velha.
Vesti a roupa velha. Sentei no chão velho.
E quando os cobradores chegaram,
descobri que ainda atendo pelo nome antigo.

Pelo Espírito que ressuscitou Jesus dos mortos,
mortifica em mim, hoje, o que ainda se recusa a morrer.
E onde mortificares, vivifica —
não me deixes uma casa vazia.

Eu já não vivo. Cristo vive em mim.
Que hoje isso pare de ser teologia
e comece a ser endereço.
Amém."

Baseado em Romanos 6.4 · Gálatas 2.20 · Colossenses 3.5

"A certidão já está assinada. A pergunta é: para onde você vai hoje, quando achar que ninguém está olhando?"

O Discipulado

Referências bíblicas deste estudo

Romanos 6.2 Nós que morremos — aoristo, fato consumado
Romanos 6.4 Sepultados com ele pelo batismo — synetáphēmen
Romanos 6.11 Considerai-vos mortos para o pecado — o imperativo
Romanos 7.1–4 A morte muda a jurisdição — imagem do casamento
Romanos 8.13 Pelo Espírito mortificardes os feitos da carne — vivereis
Romanos 13.14 Não façais provisão para a carne
Gálatas 2.20 Estou crucificado com Cristo — synestaúrōmai, perfeito
Filipenses 3.4–8 O currículo tornou-se skýbala — lixo diante de Cristo
Colossenses 3.5 Mortificai — nekrṓsate, aoristo imperativo
Colossenses 3.9–10 O velho homem despido, o novo homem vestido
Colossenses 3.12 Revesti-vos — mortificação sem vivificação é casa vazia
Ezequiel 36.26 Coração novo, espírito novo — a promessa cumprida na cruz
Marcos 5.15 O endemoninhado assentado, vestido e em perfeito juízo
Lucas 19.8 Zaqueu — a carteira confessa antes da boca
Atos 5.29 Pedro depois de Pentecostes — outro senhor, mesma personalidade
Tiago 5.16 Confessai uns aos outros — morte pública, vida pública
Hebreus 12.1 O pecado que tão de perto nos rodeia — específico, seu
Mateus 12.43–45 A casa varrida esperando o antigo morador