philipsburg, pensilvânia, fevereiro de 1958
David Wilkerson tinha vinte e seis anos e pastoreava uma igreja pequena numa cidade de mineiros. A igreja tinha crescido. A casa pastoral tinha sido reformada. Ele passava as noites vendo televisão.
Numa noite decidiu que aquilo estava comendo o tempo dele. Vendeu o aparelho e passou a usar as horas entre meia-noite e duas da manhã orando no escritório da igreja.
Foi numa dessas madrugadas que folheou uma edição da revista Life e parou numa página sobre sete adolescentes de Nova York julgados pelo assassinato de Michael Farmer, um garoto de quinze anos com sequela de poliomielite, morto num parque do Harlem.
Wilkerson não olhou para o crime. Olhou para o rosto dos réus. Ele conta que começou a chorar e não conseguiu explicar por quê.
o fracasso que virou credencial
Ele dirigiu seis horas até Nova York sem contato, sem plano e sem saber circular na cidade.
Conseguiu entrar na sala do tribunal. Quando a sessão foi suspensa, avançou na direção do juiz com a Bíblia na mão para pedir autorização de falar com os garotos. Policiais o arrastaram para fora. Fotógrafos pediram que levantasse a Bíblia, e ele levantou.
No dia seguinte a foto estava nos jornais, com legenda de pregador que atrapalhou julgamento. Líderes da denominação ligaram para o pai dele preocupados com a ordenação. Ele voltou para casa humilhado.
Semanas depois, andando pelo Brooklyn, adolescentes começaram a reconhecê-lo. Não como pastor. Como o cara que apareceu no jornal em confusão com a polícia.
A foto que era vergonha na Pensilvânia virou passaporte no Brooklyn. Wilkerson entrou naquelas ruas pela porta do próprio fracasso.
o que ele fez antes de ter programa
Nada de estrutura.
Durante meses voltou toda semana, dormiu no carro, andou por Fort Greene e pelo Harlem espanhol, aprendeu nomes, apanhou, foi ameaçado de faca e continuou voltando.
Numa das reuniões deu os próprios sapatos para Jo-Jo, um líder de gangue que não tinha onde morar, e pediu a uma família da igreja local que o hospedasse.
A tese que ele formulou na rua é simples e se repete o livro inteiro. Aqueles garotos não estavam em gangue por maldade. Estavam por solidão. A gangue entregava a única coisa que ninguém mais entregava: pertencer a alguma coisa e ser defendido por alguém.
A leitura é parcial. Racismo, moradia, desemprego e a chegada da heroína naqueles bairros explicam muito do que ele credita só à solidão. Mas a pergunta que ele deixou continua de pé sessenta anos depois: que comunidade a igreja tem para oferecer no lugar da que ele encontrou lá?
st. nicholas arena, julho de 1958
Wilkerson conseguiu uma semana de reuniões num ginásio de boxe em Manhattan, apoiado por pastores de língua espanhola do Harlem. As primeiras noites foram um desastre. Pouca gente, muito tumulto.
Na última noite o ginásio encheu de gangues rivais. Os Mau Maus chegaram fazendo barulho.
Na hora da oferta, Wilkerson chamou os próprios garotos para recolher o dinheiro. Nicky Cruz e Israel Narvaez saíram pela porta com os cestos cheios. Metade do ginásio deu o dinheiro como perdido.
Eles voltaram e entregaram tudo.
Nicky explicou depois por que voltou. Alguém tinha tratado ele como se fosse confiável, e aquilo nunca tinha acontecido na vida dele.
Numa conversa anterior, quando Nicky ameaçou cortá-lo em pedaços, Wilkerson respondeu que ele podia cortá-lo em mil pedaços e espalhar na rua, e cada pedaço continuaria amando ele. É a frase que dá título ao livro. A cruz contra o punhal.
clinton avenue, 28 de agosto de 1961
A conversão de Nicky não fechou a história. Israel voltou para a gangue e foi preso por homicídio. Wilkerson se culpou pela falta de acompanhamento, largou a igreja e mudou para Nova York.
Comprou um casarão arruinado na Clinton Avenue, em Bedford-Stuyvesant, e abriu ali o primeiro centro do Teen Challenge.
Em 28 de agosto de 1961 o caixa tinha catorze dólares. A parcela da hipoteca era de quinze mil. Um advogado conseguiu duas semanas de prorrogação. Um dia antes do vencimento chegou um cheque de exatamente quinze mil dólares.
O episódio virou o clímax do livro, e é onde vale ler com atenção. Provisão no limite forma coragem, e também é o argumento mais fácil de converter em pressão financeira sobre leitor vulnerável. A obra foi publicada em 1963, quando o ministério precisava de dinheiro e voluntários. Isso não invalida o relato. Explica quais episódios foram escolhidos.
como ler isso hoje
O livro é de 1963 e carrega a linguagem de 1963 sobre raça, origem porto-riquenha e dependência química. Não é para repetir.
E tem a parte que exige mais cuidado. O texto trata desintoxicação de heroína como episódio de três dias resolvido por oração. Abstinência de opioide pede acompanhamento médico, recaída faz parte do percurso de muita gente, e nenhum relato de 1961 substitui isso. O valor pastoral está em ficar com a pessoa. O limite está em transformar um resultado imediato em regra universal.
Sobra o que ninguém derruba. Um pastor sem dinheiro, sem contato e sem experiência foi para uma cidade que não o queria, ficou tempo suficiente para aprender nomes, e acabou construindo casa, rotina e trabalho para gente que a cidade já tinha etiquetado como descartável.
A pergunta não é se você tem estrutura para ajudar alguém. Wilkerson não tinha nenhuma. A pergunta é: quem você já classificou como caso perdido antes de ter passado uma semana perto?
Essa reflexão nasceu da leitura de A Cruz e o Punhal, de David Wilkerson. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.