haarlem, holanda, 1943
Casper ten Boom tinha oitenta e quatro anos e consertava relógios na mesma loja havia meio século. Morava em cima do negócio, numa casa estreita e torta que a família chamava de Beje. As filhas Corrie e Betsie moravam com ele. Corrie tinha cinquenta e um anos e foi a primeira mulher relojoeira licenciada do país.
Nenhum dos três tinha treinamento militar, arma ou plano.
Em 1943 eles decidiram esconder judeus dentro de casa. Um arquiteto da resistência subiu até o quarto de Corrie, o mais alto da casa, e levantou uma parede falsa. Sobrou um vão de menos de um metro de profundidade, com uma prateleira de livros disfarçando a entrada e uma campainha elétrica ligada ao andar de baixo. Cabiam seis pessoas em pé.
Quando alguém perguntou a Casper se ele sabia o que aconteceria se fossem descobertos, o velho respondeu que seria uma honra dar a vida pelo povo antigo de Deus.
28 de fevereiro de 1944
Alguém entregou a casa. A Gestapo prendeu cerca de trinta pessoas naquela tarde.
As seis que estavam atrás da parede ficaram lá, imóveis e em silêncio, com soldados dormindo do outro lado. A resistência conseguiu tirá-las quase três dias depois.
Casper morreu dez dias depois numa prisão em Scheveningen, sozinho, perguntando aos guardas por que ninguém tinha ido visitá-lo. Ninguém teve coragem de contar a Corrie na hora.
Ela e Betsie foram levadas de prisão em prisão até Ravensbrück, ao norte de Berlim, o campo destinado a mulheres.
as pulgas
Betsie contrabandeou uma Bíblia inteira para dentro do barracão, enrolada no uniforme, e passou pelas revistas sem ser encontrada.
O barracão 28 estava superlotado e infestado. Corrie odiava as pulgas. Betsie tinha lido, dias antes, uma linha de 1 Tessalonicenses mandando dar graças em tudo, e insistiu que aquilo incluía os insetos. Corrie discutiu. Achou absurdo.
Semanas depois as duas descobriram por que nenhuma guarda entrava naquele barracão para fiscalizar.
Nojo das pulgas.
Foi por causa dos insetos que a leitura clandestina funcionou todas as noites, em revezamento de idiomas, com dezenas de mulheres ouvindo, sem ninguém interromper.
16 e 28 de dezembro de 1944
Betsie morreu em Ravensbrück aos cinquenta e nove anos. Antes disso disse à irmã que as duas iam sair dali para contar ao mundo o que tinham aprendido, e repetiu a frase que o pai dizia em casa quando elas eram meninas: nenhum poço é tão fundo que Deus não seja mais fundo ainda.
Corrie foi solta doze dias depois. Anos mais tarde descobriu o motivo. Erro administrativo. Na semana seguinte à soltura dela, todas as mulheres da faixa etária dela naquele campo foram mortas.
munique, 1947
Ela estava falando sobre perdão numa igreja. O culto acabou e um homem veio na direção dela com a mão estendida, sorrindo, contando que tinha se tornado cristão e que Deus já tinha lavado o passado dele.
Corrie reconheceu o rosto. Era um dos guardas do chuveiro de Ravensbrück. Ela tinha passado nua na frente daquele homem, e a irmã dela também.
Ela escreve que ficou paralisada com a mão dele estendida no ar. Não sentiu nada parecido com perdão. Sentiu gelo e raiva. Rezou em silêncio pedindo ajuda e depois ergueu o braço mecanicamente, contra a própria vontade, do jeito que se cumpre uma ordem.
No instante em que as mãos se tocaram, ela descreve um calor descendo do ombro até os dedos, e um afeto real por aquele homem, que ela tinha certeza de não possuir um segundo antes.
O sentimento chegou depois do gesto. Nunca antes.
o que o livro sustenta
Duas afirmações, e as duas são desconfortáveis.
A primeira: nenhuma oração impediu Ravensbrück. Casper morreu sozinho numa cela. Betsie morreu de fome e frio. A fé daquela família não funcionou como escudo, e o texto não tenta disfarçar isso em nenhum momento.
A segunda: exatamente lá dentro, a graça alcançou e sustentou de um jeito que o campo não conseguiu anular.
Na cena de Munique o perdão não aparece como sentimento espontâneo de gente boa. Aparece como decisão tomada sem vontade nenhuma, e o afeto vem depois, como resultado, nunca como pré-requisito.
O livro saiu em 1971, escrito com John e Elizabeth Sherrill. Corrie viajou por mais de sessenta países contando essa história até morrer, em 1983, no dia do próprio aniversário.
A pergunta não é se você tem motivo para não perdoar. Você tem. A pergunta é: você vai continuar esperando sentir vontade primeiro, sendo que Corrie levantou o braço sem sentir absolutamente nada?
Essa reflexão nasceu da leitura de O Refúgio Secreto, de Corrie ten Boom. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.