É a cena que menos aparece nos trailers de Nárnia, mas é o motor de todo o primeiro livro. Edmund, o irmão do meio, encontra a Feiticeira Branca sozinho na floresta gelada, come o doce mágico que ela oferece, e entrega a localização dos outros três em troca de mais uma porção. Não é vilão de história em quadrinhos. É criança mimada, com inveja de verdade, fazendo a escolha mais banal e mais humana possível: trocar quem ama por um gosto passageiro na boca.
A lei antiga de Nárnia é clara: todo traidor pertence à Feiticeira, sangue por sangue. Ela já tem a faca de pedra afiada para cravar em Edmund quando Aslan, o leão que criou aquele mundo, se oferece no lugar dele. A Feiticeira aceita animada demais. Amarra o leão, tosquia a juba dele como zombaria, crava a faca na Mesa de Pedra ao amanhecer.
O que ela não sabia ler na lei antiga era a linha escrita antes do tempo começar: quando uma vítima voluntária, sem culpa nenhuma, morre no lugar de um traidor, a própria morte racha ao meio. Aslan ressuscita antes do sol nascer de vez, e a Mesa de Pedra se parte com um estrondo que ecoa pelo livro inteiro.
C.S. Lewis nunca chamou isso de alegoria disfarçada. Preferia pensar assim: e se o mesmo tipo de amor que aparece na cruz decidisse visitar um mundo de animais que falam, o que essa visita pareceria? A resposta dele foi um leão manso o bastante para uma criança dormir encostada, e forte o bastante para pagar uma dívida que não era sua.
A pergunta não é se você já traiu alguém por algo pequeno. Todo mundo já vendeu alguém por uma caixa de doce, literal ou não. A pergunta é: e se alguém já tivesse pago por isso antes mesmo de você perceber que devia?
Essa reflexão nasceu da leitura de As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S. Lewis. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.