tagaste, norte da áfrica, por volta de 370
Tinha um pé de pera perto da casa. A fruta era ruim. Agostinho tinha peras melhores no próprio quintal e não estava com fome.
Ele tinha dezesseis anos. Saiu tarde da noite com um bando de garotos, sacudiu a árvore alheia, encheu os braços, provou umas poucas e jogou o resto para os porcos.
Trinta anos depois, já bispo, já respeitado no império inteiro, escolheu abrir a autobiografia espiritual dele com essa cena. Não com as amantes. Não com os nove anos na seita. Com fruta roubada que ninguém comeu.
por que ele voltou nas peras
Porque ali o roubo estava limpo de qualquer desculpa.
Fome explicaria. Fruta boa explicaria. Não tinha nada disso. Sobrou o motivo puro: era proibido, e por isso era gostoso.
Agostinho passa páginas dissecando esse detalhe com uma frieza que psicólogo moderno ainda cita. Ele não amou a pera. Amou a transgressão. E se o desejo consegue se prender a nada, o defeito nunca esteve no que falta.
Está na ordem do que se ama.
É a tese que ele deixa para o cristianismo ocidental inteiro. O problema é de direção, não de quantidade. A pessoa quer, e quer muito, e quer as coisas certas na sequência errada, começando por si mesma.
o livro é uma oração, e você está espiando
Confissões foi escrito por volta de 397, em treze livros. Agostinho não escreve para o leitor. Escreve para Deus, em segunda pessoa, do começo ao fim. Você lê por cima do ombro dele.
A frase de abertura organiza tudo o que vem depois: fizeste-nos para Ti, e o nosso coração fica inquieto enquanto não repousa em Ti.
O resto da vida é o teste dessa frase, feito em campo. Ambição acadêmica. Sexo. Status. Astrologia. Nove anos no maniqueísmo, que ele seguiu porque a doutrina colocava o mal fora dele, como força externa, e assim o isentava da conta. Ceticismo filosófico depois disso.
Cada estação entrega uma calmaria curta e um vazio maior que o anterior.
a vontade partida ao meio
Os livros 7 e 8 são o coração do texto e a parte que ninguém consegue ler com distância.
Agostinho quer se entregar e não quer. As duas coisas ao mesmo tempo, na mesma pessoa, com a mesma força. Ele escreve que queria e não queria, e que era ele mesmo dos dois lados da briga.
A corrente que o prendia não vinha de fora. Era feita da própria vontade. Ele mesmo forjou cada elo, escolha por escolha, até a escolha virar hábito e o hábito virar necessidade.
Ninguém descreveu vício melhor mil e seiscentos anos antes de a palavra existir.
milão, 386, um jardim
Ele está no chão, chorando, sem conseguir decidir.
Do outro lado do muro uma criança canta uma cantiga qualquer, repetindo duas palavras: toma e lê.
Agostinho pega o rolo que estava por perto e lê a primeira linha em que os olhos caem, Romanos 13. Fecha o livro. Acabou a discussão. Ele conta que a dúvida saiu como quem apaga uma luz.
Mônica, a mãe, tinha passado décadas atrás dele, de cidade em cidade, chorando. Um bispo cansado de ouvi-la disse que era impossível um filho de tantas lágrimas se perder. Ela morreu poucos meses depois de ver o filho batizado.
o que ele estava provando
Agostinho não escreveu para mostrar que limpou a vida antes de ser aceito. Escreveu o contrário.
Colocou tudo na página. As peras. Os quinze anos de concubinato. O filho fora do casamento. A vaidade profissional. Exatamente para provar que nada disso foi condição de entrada.
Confessar, no latim que ele usa, carrega dois sentidos ao mesmo tempo: admitir a culpa e proclamar louvor. No livro, os dois viram a mesma frase. Ele só consegue louvar depois de parar de fingir.
Morreu em Hipona em 430, com a cidade cercada pelos vândalos, tendo mandado escrever os salmos penitenciais nas paredes do quarto para conseguir lê-los da cama.
A pergunta não é qual foi o seu pecado maior. A pergunta é: qual é a sua pera, aquela coisa pequena que você faz sem precisar e sem querer o resultado, só para sentir que pode?
Essa reflexão nasceu da leitura de Confissões, de Agostinho de Hipona. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.