Os pescadores mais experientes do lago acabavam de sobreviver à pior tempestade da vida deles, e foi só depois que o mar se aquietou que sentiram medo de verdade.
É uma cena estranha de se ler rápido. Os discípulos, gente que cresceu naquele lago, que conhece cada vento traiçoeiro da Galileia, acorda Jesus apavorada no meio da tempestade, achando que vão morrer. Ele se levanta, diz uma frase, e o vento para na hora. Qualquer roteiro comum terminaria ali, com alívio. O texto registra o oposto: depois da calmaria, eles ficaram tomados de um temor ainda maior do que durante a tempestade.
R.C. Sproul usa essa cena para abrir o argumento central de A Santidade de Deus: existe algo mais assustador do que o caos. É a ordem por trás dele, quando essa ordem tem rosto e sabe seu nome. Ele conta que carregou essa dúvida a vida inteira sem processar direito, até um professor de seminário perguntar do nada, numa aula qualquer, se ele já tinha visto Deus. A pergunta não saía da cabeça dele.
Sproul repara em algo que passa despercebido: a Bíblia nunca repete “amor, amor, amor” sobre Deus. Repete “santo, santo, santo”, três vezes seguidas, só uma vez, na boca dos serafins diante do trono, no capítulo em que Isaías se descreve arruinado só de estar perto demais daquilo. Não é medo de ser punido. É o colapso de perceber que existe uma categoria de diferença que nenhuma régua humana consegue medir. Só depois desse colapso é que Isaías recebe um carvão aceso nos lábios, e então uma missão.
A ideia mais incômoda do livro é essa: gente que nunca sentiu esse tipo de temor provavelmente nunca esteve perto o bastante para sentir. Trocar isso por conforto instantâneo é a religião mais fácil de vender e a mais rasa de se viver.
A pergunta não é se você acredita em Deus. A pergunta é: você já chegou perto o suficiente pra sentir medo?
Essa reflexão nasceu da leitura de A Santidade de Deus, de R.C. Sproul. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.