Se um demônio te desse conselho sincero sobre como destruir sua vida, ele não começaria pelo pecado óbvio. Começaria pelo trânsito.
É basicamente o que C.S. Lewis imaginou em Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz: um demônio veterano, Screwtape, escrevendo cartas de orientação para o sobrinho Rocantorto, um tentador iniciante encarregado de perder a alma de um homem inglês comum, o “Paciente”, nunca sequer nomeado no livro.
O conselho de Screwtape surpreende porque é pequeno. Ele não manda o sobrinho oferecer nada dramático. Manda explorar a irritação idiota no almoço de família. O tédio de sempre no mesmo culto de domingo. O orgulho de quem acabou de descobrir a fé e já se acha adiantado demais para aturar os “atrasados” da igreja. Screwtape sabe o que engenheiro de trânsito sabe: ninguém sai direto da estrada certa para o precipício. Sai um grau por vez, tão de leve que nem percebe quando cruzou a linha, e só descobre o desvio quilômetros depois, longe demais para voltar fácil.
O Paciente se converte, namora, rompe, atravessa uma guerra e morre num bombardeio, ainda dentro da rota certa. Na última carta, Screwtape perde a aposta e promete devorar o próprio sobrinho no jantar, furioso com o fracasso.
O que assusta em Lewis não é o inferno gritando. É o inferno sussurrando coisas tão pequenas que parecem seu próprio pensamento comum de terça-feira. Ninguém acorda decidido a se afastar de tudo que importa. Só vai ajustando um grau aqui, um grau ali, até constatar, tarde, que a rota nunca mais voltou a cruzar o destino original.
A pergunta não é se você cometeu algum pecado grande esta semana. A pergunta é: para onde os últimos cem pequenos ajustes te levaram?
Essa reflexão nasceu da leitura de Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz, de C.S. Lewis. Leia o livro completo, ou acompanhe mais reflexões como essa no podcast O Discipulado, em odiscipulado.com.br.